São os meus trechos preferidos, que fui grifando ao longo da leitura.
A HORA DA ESTRELA
Clarice Lispector
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.
Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi?
Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - a meu mistério.
Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de "força maior", como se diz nos requerimentos oficiais, por "força de lei".
Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Vivemos exclusivamente no presente, pois presente e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis.
E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.
Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca.
Na pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou.
Escrevo por não ter nada a fazer no mundo. Sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.
Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.
Faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo.
Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto.
Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de uma melhor, que se apresente e a diga, estou há anos esperando.
Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto.
Pois que vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender.
Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta.
E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficaria já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romântica. Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer.
É que ela sentia falta de encontrarse consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro.
Minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que a tristeza era uma alegria falhada.
Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia reresentando com obediência o papel de ser.
Quanto a mi, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.
Estes sonhos, de tanta interioridade, eram vazios porque lhes faltava o núcleo essencial de uma prévia experiência de - de êxtase, digamos. A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos.
Era apenas fina matéria orgânica. Existia. Só isso. E eu? De mim só se sabe que respiro.
Ela acreditava em anjo e, porque acreditava eles existiam.
Pergunto eu: conheceria ela algum dia do amor o seu adeus? Conheceria algum dia do amor os seus desmaios? Teria a seu modo o doce voo? De nada sei. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.
Irremediável era o grande relógio que funcionava no tempo. Sim, desesperadamente para mim, as mesmas horas. Bem, e daí? Daí, nada. Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades.
Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia.
Ela: - É que só sei ser impossível, nã sei mais nada.
Que é que eu faço para conseguir ser possível?
É melhor eu não falar em felicidade ou infelicidade - provoca aquela saudade desmaiada e lilás, aquele perume de violeta, as águas geladas da maré mansa em espums pela areia. Eu não quero provocar porque dói.
Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar. Gostava de sentir o tempo passar. Ninguém percebia que ela ultrapassava com sua existência a barreira do som.
Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.
Ninguém pode entrar no coração de ninguém.
Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento ara outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva. É a minha vingança.
Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez e faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro.
O pecado me atrai, o que é proibido me fascina.
Tinha pensamentos gratuitos e soltos porque embora à toa possuía muita liberdade interior.
O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
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