Não. Isso não é passageiro, como em um daqueles dias de escuridão. Simplesmente sou eu, com todo o meu ser, explodindo de nada. Mergulhando a minha alma no vazio, no gelado, onde, metros abaixo da superfície, consigo ver apenas fracos raios de sol... assim como os seus olhos me enfrentaram pela última vez. Fracos. Desesperados. Como que pedindo para que eu nunca tivesse existido e despertado isso em você.
Porém, ao me encarar de verdade, quando conseguiu ver minha alma através do meu olhar, o brilho reapareceu, mesmo que tímido e inconsciente. Então, por que ir embora? Não é muito mais simples ficar e me completar? O mundo, as pessoas. É isso que te incomoda? Pode falar. Eu tenho o direito de, pelo menos, saber a verdade.
Pare de ir em direção à porta a cada frase que eu digo! Você precisa enfrentar a si, a nós. Estou vendo as lágrimas que você tenta esconder. De mim? Realmente, não te entendo. Sempre foi incrível, diferente. Todos aqueles fins de tarde curtindo a grama e vendo o pôr do sol. Lembra?
Ali, tínhamos a certeza de que nada poderia destruir a magia e a força. O ar que respirávamos era só um detalhe. No nosso horizonte, os planos. A brisa vinha tocar nossa pele como um carinho, uma aprovação divina. Não faltava mais nada. Éramos nós. Aquela era a resposta para todas as perguntas.
Pensar? Não, apenas sentir. Horas e horas passavam lentamente por nós como uma melodia. O abraço era sublime, tão indescritível e incompreensível quanto o universo. Olhe para você! Olhando o campo lá fora através da janela, lembrando de cada segundo narrado por mim, os dias de felicidade. E, depois de tudo isso, você insiste na ideia de me deixar?
Bom, eu não tenho forças pra fazer mais do que eu fiz. Gostaria muito de poder abrir os seus olhos para mim. Estou aqui, qual é o problema? Nada... nem uma palavra. Você é mesmo diferente, estranhamente inigualável. Vai ficar aí imóvel, não é? Me dê alguns segundos. Se não de você, de, pelo menos, tentar encontrar as respostas. Fique aí, já volto.
Eu saí do quarto e desci as escadas em direção ao jardim. Me escondi em meio às árvores, onde eu não podia ser vista, mas ainda te observava. Você chorava ainda, agora, mais desesperadamente do que nunca. No batente da janela, abraçando os joelhos contra o corpo, se encolhendo em sua própria confusão.
Sabe, mesmo compondo aquela cena triste, você parecia ser o personagem mais lindo de um quadro, o qual fora pintado com tintas de emoções e sangue. Tinha pedido um tempo, ausência de sua presença. Porque, além do fato de que minha cabeça doía e meu coração quase estava saindo pela boca, eu simplesmente não podia te ver me ignorar daquela forma.
Se eu tivesse a certeza de que realmente era aquilo que você queria, talvez, seria mais “fácil”. Mas não era isso. Você chorava. Não olhava em meus olhos. Quando eu te tocava, rapidamente se esquivava, como quem foge de uma tentação. Eu também tenho meus medos, dúvidas e receios. Todos eles desaparecem quando fecho os meus olhos e penso em você.
Durante muito tempo, eu procurei, sem saber exatamente o motivo, aquilo que me inspirasse a escrever com o coração. Achei você quando não procurava. Aliás, quando já tinha desistido de procurar, de fantasiar. E foi assim, como eu sempre soube que seria. Percebe o motivo do meu desespero? É, continue pensando, meu anjo. Exatamente como eu estou te vendo agora, de longe.
Me ocorreu agora que a distância pode ajudar, porque, da mesma forma que eu fico enfeitiçada quando estou ao seu lado, você também pode ficar com os olhos cegos de amor. Depois de uma longa hora, voltei ao quarto. Você estava em minha cama, dormindo. Apenas sentei ao seu lado cuidadosamente para não te acordar. O cansaço físico e mental era claramente perceptível. Bastava observar sua respiração. Profunda, sono pesado.
Por um breve momento, fiquei curiosa. Queria saber o que os seus sonhos tinham preparado depois de tudo aquilo, mas isso não era certo. Os sonhos pertencem a um mundo inteiramente nosso. A calma acolheu minha alma naquele momento. Você ali, dormindo. Tudo parecia como antes. Acariciei seus cabelos. Traçava suas linhas do rosto, tão perfeitas! Pele macia, corada. Sua boca, então, não consigo descrever a sensação de tocá-la com meus lábios.
Não resisti. Me debrucei sobre o seu corpo e te beijei com suavidade. Foi o necessário para que você abrisse os olhos. E, dessa vez, me perdi absurdamente naquela cor mais incrível do mundo. Mais um beijo, agora, desesperado e intenso. Agradeci ao universo quando você, finalmente, correspondeu.




