Pensamentos Soltos

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

É COMO UMA SAUDADE DE UM TEMPO QUE AINDA NÃO PASSOU

Não. Isso não é passageiro, como em um daqueles dias de escuridão. Simplesmente sou eu, com todo o meu ser, explodindo de nada. Mergulhando a minha alma no vazio, no gelado, onde, metros abaixo da superfície, consigo ver apenas fracos raios de sol... assim como os seus olhos me enfrentaram pela última vez. Fracos. Desesperados. Como que pedindo para que eu nunca tivesse existido e despertado isso em você. 

Porém, ao me encarar de verdade, quando conseguiu ver minha alma através do meu olhar, o brilho reapareceu, mesmo que tímido e inconsciente. Então, por que ir embora? Não é muito mais simples ficar e me completar? O mundo, as pessoas. É isso que te incomoda? Pode falar. Eu tenho o direito de, pelo menos, saber a verdade. 

Pare de ir em direção à porta a cada frase que eu digo! Você precisa enfrentar a si, a nós. Estou vendo as lágrimas que você tenta esconder. De mim? Realmente, não te entendo. Sempre foi incrível, diferente. Todos aqueles fins de tarde curtindo a grama e vendo o pôr do sol. Lembra? 

Ali, tínhamos a certeza de que nada poderia destruir a magia e a força. O ar que respirávamos era só um detalhe. No nosso horizonte, os planos. A brisa vinha tocar nossa pele como um carinho, uma aprovação divina. Não faltava mais nada. Éramos nós. Aquela era a resposta para todas as perguntas. 

Pensar? Não, apenas sentir. Horas e horas passavam lentamente por nós como uma melodia. O abraço era sublime, tão indescritível e incompreensível quanto o universo. Olhe para você! Olhando o campo lá fora através da janela, lembrando de cada segundo narrado por mim, os dias de felicidade. E, depois de tudo isso, você insiste na ideia de me deixar? 

Bom, eu não tenho forças pra fazer mais do que eu fiz. Gostaria muito de poder abrir os seus olhos para mim. Estou aqui, qual é o problema? Nada... nem uma palavra. Você é mesmo diferente, estranhamente inigualável. Vai ficar aí imóvel, não é? Me dê alguns segundos. Se não de você, de, pelo menos, tentar encontrar as respostas. Fique aí, já volto. 

Eu saí do quarto e desci as escadas em direção ao jardim. Me escondi em meio às árvores, onde eu não podia ser vista, mas ainda te observava. Você chorava ainda, agora, mais desesperadamente do que nunca. No batente da janela, abraçando os joelhos contra o corpo, se encolhendo em sua própria confusão. 

Sabe, mesmo compondo aquela cena triste, você parecia ser o personagem mais lindo de um quadro, o qual fora pintado com tintas de emoções e sangue. Tinha pedido um tempo, ausência de sua presença. Porque, além do fato de que minha cabeça doía e meu coração quase estava saindo pela boca, eu simplesmente não podia te ver me ignorar daquela forma. 

Se eu tivesse a certeza de que realmente era aquilo que você queria, talvez, seria mais “fácil”. Mas não era isso. Você chorava. Não olhava em meus olhos. Quando eu te tocava, rapidamente se esquivava, como quem foge de uma tentação. Eu também tenho meus medos, dúvidas e receios. Todos eles desaparecem quando fecho os meus olhos e penso em você. 

Durante muito tempo, eu procurei, sem saber exatamente o motivo, aquilo que me inspirasse a escrever com o coração. Achei você quando não procurava. Aliás, quando já tinha desistido de procurar, de fantasiar. E foi assim, como eu sempre soube que seria. Percebe o motivo do meu desespero? É, continue pensando, meu anjo. Exatamente como eu estou te vendo agora, de longe. 

Me ocorreu agora que a distância pode ajudar, porque, da mesma forma que eu fico enfeitiçada quando estou ao seu lado, você também pode ficar com os olhos cegos de amor. Depois de uma longa hora, voltei ao quarto. Você estava em minha cama, dormindo. Apenas sentei ao seu lado cuidadosamente para não te acordar. O cansaço físico e mental era claramente perceptível. Bastava observar sua respiração. Profunda, sono pesado. 

Por um breve momento, fiquei curiosa. Queria saber o que os seus sonhos tinham preparado depois de tudo aquilo, mas isso não era certo. Os sonhos pertencem a um mundo inteiramente nosso. A calma acolheu minha alma naquele momento. Você ali, dormindo. Tudo parecia como antes. Acariciei seus cabelos. Traçava suas linhas do rosto, tão perfeitas! Pele macia, corada. Sua boca, então, não consigo descrever a sensação de tocá-la com meus lábios. 

Não resisti. Me debrucei sobre o seu corpo e te beijei com suavidade. Foi o necessário para que você abrisse os olhos. E, dessa vez, me perdi absurdamente naquela cor mais incrível do mundo. Mais um beijo, agora, desesperado e intenso. Agradeci ao universo quando você, finalmente, correspondeu.




quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Clarice ...

São os meus trechos preferidos, que fui grifando ao longo da leitura.

A HORA DA ESTRELA
Clarice Lispector

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi?

Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - a meu mistério.

Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?

O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.

Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de "força maior", como se diz nos requerimentos oficiais, por "força de lei".

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Vivemos exclusivamente no presente, pois presente e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.

Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis.

E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.

Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca.

Na pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou.

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo. Sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.

Faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo.

Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto.

Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de uma melhor, que se apresente e a diga, estou há anos esperando.

Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto.

Pois que vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender.

Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta.

E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficaria já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romântica. Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer.

É que ela sentia falta de encontrarse consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro.

Minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que a tristeza era uma alegria falhada.

Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia reresentando com obediência o papel de ser.

Quanto a mi, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.

Estes sonhos, de tanta interioridade, eram vazios porque lhes faltava o núcleo essencial de uma prévia experiência de - de êxtase, digamos. A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos.

Era apenas fina matéria orgânica. Existia. Só isso. E eu? De mim só se sabe que respiro.

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava eles existiam.

Pergunto eu: conheceria ela algum dia do amor o seu adeus? Conheceria algum dia do amor os seus desmaios? Teria a seu modo o doce voo? De nada sei. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.

Irremediável era o grande relógio que funcionava no tempo. Sim, desesperadamente para mim, as mesmas horas. Bem, e daí? Daí, nada. Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades.

Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia.

Ela: - É que só sei ser impossível, nã sei mais nada.
Que é que eu faço para conseguir ser possível?

É melhor eu não falar em felicidade ou infelicidade - provoca aquela saudade desmaiada e lilás, aquele perume de violeta, as águas geladas da maré mansa em espums pela areia. Eu não quero provocar porque dói.

Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar. Gostava de sentir o tempo passar. Ninguém percebia que ela ultrapassava com sua existência a barreira do som.

Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.

Ninguém pode entrar no coração de ninguém.

Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento ara outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva. É a minha vingança.

Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez e faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro.

O pecado me atrai, o que é proibido me fascina.

Tinha pensamentos gratuitos e soltos porque embora à toa possuía muita liberdade interior.

O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.